sábado, 3 de setembro de 2011

O renascer. Evocar a figura de "Miguel de Fiães".

   
De Miguel  Francisco Fernandes Machado, conhecido por "Miguel de Fiães" natural de Fiães, avô materno do Dr. Armando Morais Soares, transcreve-se: 
"Sendo uma figura política local numa época em que, como observa Soares da Silva, imperava uma «conspícua degeneração do comportamento da maioria da classe política» fatalmente decorrente do «rotativismo político» inaugurado por João Franco, Miguel Francisco Fernandes Machado, enquanto Administrador do Concelho de Valpaços, soube reagir em defesa dos direitos municipais e do seu or gulho de valpacense quando António Teixeira de Sousa, seu correligionário do Partido Regenerador, entretanto proposto a eleição pelo círculo de Alijó, distrito de Vila Real, tomou as oportunas providências para que as freguesias de Jou, Curros e Vales fossem subtraídas ao concelho de Valpaços e integradas na comarca de Murça.


Apesar das diligências tomadas por “Miguel de Fiães”, telegrafando ao Ministro da Justiça para lhe dar conta da sua indignação perante tal acto e solicitar que não fosse dado provimento à decisão e chegando a deslocar-se a Lisboa para interceder pessoalmente do mesmo assunto junto do Ministro, a verdade é que as três freguesias mencionadas passaram ao concelho de Murça. Este verdadeiro golpe de teatro gizado e concretizado por António Teixeira de Sousa, cuja influência nas mais altas instâncias do poder era incomparavelmente superior ao de Miguel de Fiães, deu origem ao diferendo que ficou conhecido por Guet-Apens de Valpaços e cujo desenvolvimento e desfecho constituem tema central da obra recentemente publicada e já mencionada da autoria de José António Soares da Silva, onde este autor considera a acção de Miguel Machado, ao decidir excluir o nome de Teixeira de Sousa da lista eleitoral, a seguir à perda das três freguesias, e substituí-lo pelo nome do Dr. António Lobato, irmão do Governador Civil de Vila Real, como um acto de coragem cujo desfecho foi a automática demissão do cargo de Administrador do Concelho de Valpaços, ainda que mais tarde, já em plena República, o mesmo “Miguel de Fiães” viesse a retomar o exercício do cargo por várias vezes até ao fim dos seus dias.

Passou Miguel Machado o resto da sua vida a publicar, a expensas próprias, uma compilação de artigos editados durante o diferendo e um curioso opúsculo onde procura justificar-se perante os seus actos e decisões e reafirmar a sua sanidade moral.

Se tivermos em conta a observação de José António Soares da Silva, na obra já várias vezes mencionada, de que “se é verdade que nos jogo das réplicas e tréplicas, se extravasa, por vezes, o jogo da vida política, também é verdade e aceite por todos que a credibilidade dos políticos se constrói na sua estatura moral e exemplaridade das suas vidas privadas”, Miguel Machado não carece de qualquer acção de redenção moral, pois ninguém duvidará, decerto, que o seu protagonismo na célebre contenda do Guet-Apens de Valpaços foi determinado pela sua dedicação ao concelho, pelo seu orgulho em ser valpacense e pelo desgosto perante o que os seus companheiros de partido aprontaram contra ele e a terra que lhe cabia administrar.

Não restam hoje dúvidas de que foi um Homem cuja nobreza de carácter o obrigou a colocar as causas sociais acima dos interesses do próprio partido que representava, que lutou pela integridade administrativa do concelho de Valpaços e, por tais causas, sobrevieram-lhe alguns dissabores que conseguiu suportar estóica e orgulhosamente. Um ilustre valpacense que cumpre resgatar para a História e um digno candidato à nossa Galeria de Notáveis.


 Resumo biográfico  

Transcrição

Natural de Fiães, onde nasceu em 1845*, Miguel Machado, vulgarmente conhecido por Miguel de Fiães, foi figura prestigiada do concelho de Valpaços, sucedendo-se ao dr. Filipe José Vieira, de Vassal, na chefia do Partido Regenerador de Valpaços.
Lavrador, Contador, Administrador do Concelho e Administrador da Companhia Lisbonense de Iluminação a Gás, dele diz o Padre João Vaz de Amorim, nos seus apontamentos históricos:

 «…homem inteligente e dedicado a causas sociais, muito considerado pelos seus conterrâneos e sobretudo pelo clero que, em Valpaços, foi sempre um seu aliado eleitoral».

Desse tempo ficou um dito de espírito relativo à sua pessoa que pode ter ressonâncias oposicionistas: Miguel de Fiães era lavrador e não lavrava, contador e não contava, administrador e não administrava. No entanto, a ilustrar a sua nobreza de espírito, está o facto, por exemplo, de Miguel Machado ter feito o donativo mais elevado à Instituição do Socorro, associação de beneficência laica, constituída em 11 de Fevereiro de 1895, por iniciativa de Joaquim de Castro Lopo, figura de proa do Partido Progressista, partido da oposição, e que lhe valeu fortes críticas por parte de companheiros de partido, tendo sido acusado de colagem aos Progressistas.

Não obstante a sua demissão após o caso que aqui se expõe [o Guet-Apens de Valpaços], volta a ser administrador do concelho de Valpaços mais algumas vezes, a última das quais em 1915, já na República, embora por pouco tempo, uma vez que morre a 30 de Junho de 1916."

*No Livro de Recenseamento Eleitoral para o ano de 1900/1901, tinha Miguel Machado 55 anos de idade

José António Soares da Silva, Traição de Valpaços ou Traição a Valpaços?, CMV, 1ª Ed., Março 2010, p. 25.





  Na foto os pais do Dr.Armando, a mãe Maria da Glória, filha de Miguel Machado.


3 comentários:

  1. Caro Joaquim Malvar Azevedo:
    Congratulo-me com a sua preocupação em evocar a figura do grande valpacense que foi Miguel de Fiães e sinto-me honrado por ter entendido fazê-lo, citando o nosso post editado no mesmo sentido evocativo deste Grande Homem. Cumpre-me, todavia adverti-lo para um pequeno lapso da nossa inteira responsabilidade, de que pessoalmente me penitencio, dirigindo-lhe as mais sinceras desculpas: A referência à obra do meu caro amigo e colega, Dr. José António Soares de Sousa intitula-se Traição de Valpaços ou Traição a Valpaços (e não de... e de...). Proponho que rectifique esse lapso na sua edição que lamentavelmente partiu do Clube de História de Valpaços.
    Os meus respeitosos cumprimentos,
    Leonel Salvado

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  2. Caro Leonel Salvado,

    Agradeço o seu comentário para a rectificação e aproveito para lhe dizer que não tenho conseguido comunicar consigo via e-mail.
    Lamento não ter conseguido agilizar uma visita ao solar no mês de agosto, como tinha sido combinado.
    Deixo-lhe por isso aqui os meus contactos telefónicos: 252374178 919341042

    Cumprimentos
    Jmalvar

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  3. Prezado Joaquim Malvar:
    O meu endereço pessoal é leonelsalvado@gmail.com
    É estranho que não tenha conseguido comunicar através dele. Em todo o caso, aproveito para agradecer-lhe o facto de não se ter esquecido do combinado. Vou tentar em breve enviar-lhe uma mensagem a respeito da mesma possível visita que muito me agrada. Obrigado.
    Com os melhores cumprimentos,
    Leonel Salvado.

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